Namoro pela internet

SÃO CADA VEZ MAIS COMUNS CASAIS QUE MANTÊM NAMOROS LONGOS PELA INTERNET. MAS NUNCA SE VIRAM

Por: Ricky Hiraoka / Foto: André Vieira

Há muito tempo a ciência já descobriu que o amor tem tudo a ver com química. Quem é que nunca ouviu falar, por exemplo, dos feromônios, os cheiros individuais responsáveis por despertar interesse sexual em possíveis parceiros? Os cientistas defendem que nos sentimos atraídos por pessoas cujo sistema imunológico é muito diferente do nosso. Em outras palavras, e de acordo com a ciência evolutiva, ficamos “de olho” no patrimônio genético alheio interessados em produzir filhos saudáveis – a mistura entre dois sistemas diferentes resultaria em um terceiro mais forte. O que os especialistas ainda não sabem explicar muito bem é por que, apesar de tudo isso, cada vez mais são comuns os relacionamentos que não apenas nascem na internet, como são vividos ali o tempo todo – sem que os envolvidos cheguem a se encontrar pessoalmente.

Alguma explicação para essa predileção pelo amor.com? Sim, já há algumas. “O computador facilita a aproximação, tanto do ponto de vista prático quanto do de enfrentamento de dificuldades como timidez e baixa estima”, arrisca o terapeuta de família Sergio Savian. “Muita gente tem medo de se decepcionar no cara a cara, principalmente quando coleciona fracassos amorosos, e por isso acaba estendendo relacionamentos virtuais por anos. Desse jeito, a pessoa sente que tem alguém e, ao mesmo tempo, se protege dos riscos de uma relação real”, completa.

INCOMPATIBILIDADE DE AGENDAS

A estudante de gestão de pessoas Bruna Vieira, 22 (foto de abertura da matéria), namora há cinco meses o operador de telemarketing Marcos. Apesar de nunca ter estado com ele cara a cara, considera que esse é o melhor romance que já viveu. “Os meus exs ‘reais’ não tinham muito tempo para mim… Namorando pelo computador, consigo falar com o Marcos todos os dias. Me sinto muito mais próxima dele do que já estive de qualquer outro. Toda hora ele me manda e-mail, torpedos… O Marcos é superatencioso!”
Bruna e o príncipe de bytes e pixels (versão moderna do de carne e osso) vivem na mesma cidade, Taboão da Serra, em São Paulo, e nunca se encontraram, por “pura incompatibilidade de agenda”. “Nós dois trabalhamos o dia inteiro e de noite eu faço faculdade”, explica Bruna. “Nos fins de semana sou voluntária em um projeto social e ele trabalha. Viu?! O formato virtual é ideal para a gente!”

Não há estatísticas sobre quantas histórias de amor surgem na web, mas há números que mostram que os brasileiros adoram paquerar e fazer amigos via mouse. Oito em cada dez internautas do país mantêm perfis em redes sociais. Especialista em relacionamentos amorosos, a psicóloga Roseli Bettini lembra que tanto nas relações de amor quanto nas de amizade, “quando não há convivência no cotidiano, evita-se lidar com o que as outras pessoas têm de ruim, com o círculo social delas”. Roseli aconselha: “Mas é óbvio que para alcançar maior profundidade, o olho no olho e o toque são imprescindíveis”.

Sete em cada cem adultos brasileiros com acesso à internet já fizeram sexo virtual – o dado está em um levantamento sobre comportamento sexual e doenças sexualmente transmissíveis divulgado pelo Ministério da Saúde em junho. Transar pelo computador, e em inglês!, é coisa corriqueira na vida do gráfico Eduardo Alexandre, 28 (foto). Há quatro anos e nove meses ele namora a americana Hannah, de Nova York, que conheceu no friendster.com. E com quem nunca se encontrou. “Combinamos de nos ver uma vez, no Canadá, mas eu estava desempregado e negaram meu visto. Não consegui ir aos Estados Unidos pelo mesmo motivo.”

Apesar da distância, o relacionamento tem os mesmos ingredientes de um namoro cara a cara: fidelidade, ciúme, conversas diárias, sexo frequente. “A gente usa os recursos audiovisuais disponíveis para tentar ter uma relação normal”, explica Eduardo. Ele garante: em quase cinco anos de namoro, se beijou cinco meninas “de verdade” foi muito. “Não tenho vontade de namorar outra pessoa. Quero ver se vai dar certo com a Hannah, não vou desistir depois desse tempo. Mas confesso: estou de saco cheio de abraçar e beijar o travesseiro! A gente precisa dar um jeito de se ver.”

O REINO DA IDEALIZAÇÃO

Professora de relacionamentos amorosos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a psicóloga Lidia Weber alerta: “É mais fácil escrever do que falar certas coisas. A internet ajuda a construir intimidade, mas também facilita a idealização”. A recepcionista Lúcia Carvalho, 26 (foto), exemplifica a tese. Lúcia, que mora em São Paulo, vinha de um casamento desgastado de dez anos quando “encontrou” no Orkut um rapaz seis anos mais novo, do Ceará, amigo de um falecido primo dela. Por causa dele, rompeu com o marido. “Esse novo amor me encorajou a sair de uma relação que não vinha dando certo”, diz.

Os dois namoraram a distância por cinco meses e falaram em casamento. “Mandei um anel pelos Correios para ele saber o tamanho do meu dedo. Íamos trocar alianças de compromisso.” Um dia depois de ser entrevistada para esta reportagem, Lúcia soube, por e-mail, que estava sendo traída. A mensagem foi enviada por uma garota que alegava ser a verdadeira namorada do namorado virtual dela. Apesar das negativas do parceiro, Lúcia terminou o romance. “Quando conversamos sobre o tal e-mail, ele insinuou que eu estava inventando tudo. Foi supergrosso e estúpido comigo. Percebi o óbvio: eu não o conhecia.” Mesmo a distância, não tem jeito: é impossível evitar 100% as dores de amor.

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1 Comentário

  1. É muito complicado esse lance mesmo, mas chega uma hora que ou a coisa passa pro real ou não vinga. Fiquei surpreso por ver o casal morar na mesmo cidade namorar a 5 meses e nunca ter se visto.Creio que trata-se de baixa estima e insegurança. Agora, namorar a 5 anos alguem de outro país sem nunca ter visto me deixa confuso entre amor verdadeiro ou falta de perspectiva.

    Grande bju muito boa matéria!


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