O vício por sexo

  • Quando o prazer vira compulsão e atrapalha a sua vida

Tem gente que gosta tanto, mas tanto, de sexo que acaba ficando dependente da coisa. Acredite: a compulsão por transar não é nada divertida.

Na casa da enfermeira Mislene Carvalho, 22 anos, é proibido acessar a internet. Ela e o marido, de 28 anos, recentemente trocaram a web por um videogame. A decisão foi resultado de um longo processo que começou há quatro anos, quando Mislene flagrou o companheiro se masturbando diante de um site com filmes pornográficos. “Resolvi investigar se isso acontecia com frequência e me deparei com falsos perfis dele no Orkut e no MSN. Foi um choque: descobri que meu marido se fingia de mulher para transar virtualmente com outros homens!”, conta ela. Mislene também encontrou uma coleção de vídeos de sacanagem, além de um acervo físico com mais de cem DVDs e incontáveis revistas. O marido argumentava que “homem é assim mesmo”, mas Mislene rebatia dizendo que no caso dele havia um certo exagero. “Ele não saía desses sites! Por causa deles, foi se isolando, até o ponto de parar de vez de ver os amigos, de jogar futebol. Quando tentou parar com o hábito e não conseguiu, reconheceu ‘a coisa’ como problema.” Segundo Mislene, há cinco meses a situação ficou tão grave que o companheiro resolveu procurar um psiquiatra, que diagnosticou nele a compulsão por sexo e lhe receitou terapia e uma combinação de ansiolíticos e antidepressivos. “Depois disso, meu marido queimou todos os vídeos na minha frente, como prova da vontade de superar”, diz Mislene. “Foi o amor que me fez aguentar tudo, além da certeza de que nunca fui traída fisicamente.”

  • Dependência comportamental

Do ponto de vista clínico, o sexo patológico não é considerado vício – apenas as dependências químicas são. Trata-se de uma dependência comportamental, enquadrada na mesma categoria do desejo exagerado por compras ou por jogo. “A definição de dependência é a perda de controle, com comportamento intenso ou repetitivo. No caso do sexo, o prazer acaba dando lugar aos sentimentos de angústia, insatisfação e tristeza”, diz o psiquiatra Marco Scanavino, coordenador do programa de Impulso Sexual Excessivo do Ambulatório Integrado dos Transtornos do Impulso (Amiti), do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). Marco explica que os compulsivos sexuais não são movidos por um “querer”, e sim por uma necessidade. Eles perdem a consciência de que seu comportamento possa ser prejudicial à própria imagem (no caso de a pessoa se expor publicamente) ou à saúde. “A impulsividade faz com que o compulsivo se descuide, não use camisinha e transe com vários parceiros”, completa.

  • Para cada dez homens, há uma mulher

Para cada dez homens que buscam ajuda para se livrar da compulsão, há uma mulher apenas. Considerando-se a população brasileira em idade adulta, a proporção de compulsivos sexuais é de três em cada cem pessoas, segundo dados da psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade (ProSex) da USP. “Esse número considera, obviamente, apenas os doentes em tratamento”, completa a doutora. “Ou seja: com certeza ele é bem maior.” A média de idade em que acontece a procura por ajuda médica é 34 anos. “É preciso lembrar que uma dependência não acontece de um dia para o outro… Ela vai se instalando gradativamente”, diz o psiquiatra Aderbal Vieira Jr., coordenador do programa de Dependência Sexual do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Ninguém chega para mim dizendo: ‘Doutor, acho que estou viciado em sexo, e é tão gostoso!’. A pessoa só reage quando percebe que existem consequências ruins relacionadas aos seus atos.”

A confusão entre vigor sexual e compulsão atrasa a busca por um diagnóstico. Só para ter uma ideia, a comunidade “Sou Viciado em Sexo”, do Orkut, reúne quase 500 participantes que afirmam com orgulho não conseguir parar de transar. Até as celebridades colaboram com os mal-entendidos. A apresentadora Adriane Galisteu, por exemplo, afirmou em uma entrevista, há cinco meses, que vem de uma família de viciados – o pai era fissurado em álcool; o irmão, em drogas; a mãe, em bingo – e disse em tom de piada ter ficado com “a melhor parte”, ou seja, o vício em sexo. O ator Jack Nicholson vira e mexe justifica sua solteirice com o argumento de que por ser viciado na coisa (detalhe: com diagnóstico médico) não consegue ser fiel a uma mulher só. Apesar de não ser regra, a infidelidade costuma ser comum entre os compulsivos. “A maioria nem tem relacionamentos fixos porque é complicado, então faz sexo com muitos parceiros casuais”, diz o doutor Marco.

E o que há por trás da dependência? Os psiquiatras explicam que há uma influência genética. Se alguém da família, pai ou mãe, sofre desse ou de outro transtorno de impulso, a probabilidade de que ele se manifeste é maior. Outros comportamentos familiares favorecem o desenvolvimento da doença, como o abuso sexual na infância ou adolescência. O compulsivo é tratado por meio de terapia (na qual se investigam as causas do comportamento) e, nos casos mais extremos, são receitados remédios para diminuir a urgência sexual. A terapia é importante porque o que deve ser tratado é o problema em si, não o seu sintoma (no caso, desejo sexual exagerado).

  • Os sintomas da compulsão

Transar cada vez mais, buscando uma satisfação que tinha no passado e que parece ser impossível alcançar de novo;
Na falta de sexo, sentir-se ansioso, inquieto ou com mau humor;
Dedicar muito tempo e energia à procura e ao exercício de sexo;
Ter relações familiares, profissionais ou de amizade prejudicadas pela excessiva dedicação ao sexo;
Tentar controlar seus impulsos e não conseguir.

  • Por dentro da terapia de grupo

As reuniões de segunda-feira dos Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA) de São Paulo são dedicadas aos homossexuais, mas também frequentadas por héteros. Boa parte dos integrantes do DASA comparece a quantas reuniões puder. A revista GLOSS acompanhou duas horas de desabafos, com tempo máximo de três minutos por pessoa. Todos ouviram com atenção e no fim agradeceram por compartilhar seu sofrimento. Na saída, o mediador relembrou a todos o que podia ser lido em uma placa colocada na sala: “Quem você vê aqui e o que ouve aqui, quando sair, deixe que fiquem aqui”. Acredite: além de driblar o preconceito, as vítimas do problema precisam se proteger do assédio (sim, sexual!) de pessoas mal-intencionadas. Mais informações no site www.slaa.org.br ou nos centros www.amiti.com.br e www.proad.unifesp.br.

Vi no: Gloss.com.br

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